Filosofia

 

Crises da República - análise da obra de Hannah Arendt

Maria Regina Maciel de Arruda
 
 

Resumo: “Crises da República” foi escrito por Hannah Arendt (1906-1975), que por sua vez foi uma grande filósofa política alemã, uma das poucas imagens femininas de destaque na filosofia do século XX. Hannah nasceu em uma área marginalizada de Linden, em Hannover,  que fica na Alemanha, em 14 de outubro de 1906 e faleceu 4 de dezembro de 1975 em Nova Iorque. A autora defendia de forma ferrenha o fim do Estado Totalitário, e com razão: presenciou, de peito aberto, durante toda sua vida, a ascensão dos maiores exemplos de Estados Totalitários, juntamente com suas mazelas que são entendidas desde a censura ao extermínio. A obra em questão foi escrita em 1972, e carrega em si uma importantíssima analise dos caminhos a quais passa uma república, e como a mesma acaba em crise. Com uma linguagem simples, e com ideias em nevoa de subjetividade, a leitura faz refletir acerca de como muitas potencias mundiais podem cair em erro ao reafirmarem medidas totalitárias sem preocupações em suas consequências. “Crises da República”, portanto, mostra-se além de atemporal, essencial.

Palavras-chave: Política. República. Hannah Arendt. Filosofia. Estado.

Abstract: "Crises of the Republic" was written by Hannah Arendt (1906-1975), who in turn was a great German political philosopher, one of the few prominent female images in twentieth-century philosophy. Hannah was born in a marginalized area of ​​Linden, Hanover, Germany, on October 14, 1906 and died December 4, 1975 in New York. The author strongly defended the end of the Totalitarian State, and rightly: she had been an open-hearted witness throughout her life, the rise of the greatest examples of Totalitarian States, along with her ills that are understood from censorship to extermination. The work in question was written in 1972, and carries in itself a very important analysis of the ways in which a republic passes, and how it ends in crisis. With a simple language and foggy ideas of subjectivity, the reading reflects on how many world powers can go wrong in reaffirming totalitarian measures without worrying about its consequences. "Crises of the Republic", therefore, proves to be beyond timeless, essential.

Keywords: Policy. Republic. Hannah Arendt. Philosophy. State.

Sumário: Introdução. 1. República: agoniza, mas não morre. 2. Efeitos da crise. 3. Desobediência civil e violência. Conclusão. Referência Bibliográfica.

Introdução

A obra traz reflexões que são de grande importância para se estabelecer uma compreensão do cenário político nas preposições da metade do século XX, e, subsequentemente, ser possível compará-lo com o período atual em que o mundo se encontra mergulhado em ameaças de regimes com tendências Fascistas, discursos separatistas e inúmeros sinais de possíveis conflitos nucleares. Esta resenha, portanto, para preservar o caráter de discussão da ideia anterior, apega-se em três essências partes da obra: a reflexão acerca da mentira na política, o processo de formação da desobediência civil e dos parâmetros da violência no decorrer do tempo.

A obra em sim, junto a outras obras de mesma equivalência de peso de Hannah Arendt foram publicadas em trono da década de 60 a 70 – no caso desta, 1972. Compreende-se, portanto, um período muito pertinente para discutir a reorganização do mundo, e, portanto, muito solicitado à discussão de todas as proposições da esfera política, de como reconstruir e manter um mundo que se recupera do colapso máximo. Colapso esse referente a força e o poder descomunal de um Estado usado para fins particulares, onde todas as formas de abuso possíveis foram positivadas. 

Como forma de discutir essa reorganização do mundo, toda a obra, mas em especial a sua primeira parte, reflete acerca das medidas de controle do Estado com punhos Totalitários que não se deteve apenas na Europa. Parte-se da ideia de reorganizar o mundo, curiosamente, o polarizando, e mantendo a população em uma espécie de bolha, semelhante aos regimes totalitários. Nos EUA, por meio de incontáveis mentiras a população encontrava-se suspensa da realidade mundial, e mesmo hoje com a veracidade mais que confirmada das alterações nos documentos do Pentágono há dificuldade de acreditar em tal. A reflexão acerca desse jogo de mentiras é fundamental para compreender o adoecimento da república, assim também como sua vulnerabilidade perante a ação de impostores.

1. República: agoniza, mas não morre

Pode-se entender uma República como um organismo vivo. Assim como todo organismo, precisa de condições instáveis e adequadas as suas demandas de mais diversas formas; precisa de condições ideias para seu desenvolvimento, livre da ação demasiada de patógenos, que são facilmente localizados em suas possibilidades; assim, como um organismo vivo, a República tende a ter grandes conflitos com patógenos que são de fácil adesão e difícil controle, ou de quase impossível repulsão. Dessa forma, partindo de uma leitura livre, entende-se a necessidade de reflexão acerca dos tempos atuais, que, assim como as condições de um organismo contaminado, encontra-se na República em crise. No Brasil, por exemplo, perante a uma crise política, muito facilmente pode-se encontrar elementos capazes de comprovar o rompimento do compromisso com a verdade. A disputa de egos perante o povo fragilizado ocorre de forma demasiada, e promove espaço para indivíduos capazes de fazerem aflorar os ideais totalitários na população, geralmente por meio de discursos carregados de: patriotismo descompensado, tomada de extremos, violação à liberdade, entre outros.

2. Efeitos da crise

A crise não é crise até ser percebida. O colapso não existe até vir à tona, como se o pandemônio surgisse do nada, sem explicação ou razão evidente. Por isso que é tão difícil detectar o vírus das “pequenas mentiras” para conter a crise de uma república, pois esses são quase imperceptíveis. Há formas de corromper tão corriqueiras na vida humana, que dificilmente são enxergadas como corrupção. A mentira para fins de controle de massa, por exemplo, seria localizada nessa perspectiva, quando segundo a autora, perante os documentos do Pentágono e seu efeito na massa, a população recepcionava de forma branda a guerra e festejava a violência. Uma mentira de grandes proporções, jamais será mais agressiva que algumas mentiras espalhadas, e claro pequenas. O fato é que o indivíduo é condicionado a medir e a relevar boa parte dessas mentiras, de certa forma aplicando um filtro de tolerância. Nessa mediação, ainda na reflexão acerca da aceitação das mentiras, um conjunto pequeno de mentiras não são reconhecidas como tal – faz-se necessário algo grandioso, ou até bestial para ser parado e necessário de um “BASTA!”. Percebe-se que a crise da república começa com pequenas fissuras, ou com pequenas modalidades de rompimento de sua segurança feita repetidas vezes. Assim como desenvolvido no parágrafo anterior, a crise da república, como um organismo contaminado por um patógeno, a percepção da contaminação só se da muito tardiamente, ou nem isso. No Brasil, por exemplo, a grande mídia faz um esforço descomunal para conter e manusear a população perante a sua vontade, sem necessariamente ser comprometida com a verdade dos fatos que veicula. Por isso, certa parte da população acredita que hoje não há mais uma crise política no Brasil devido a acontecimentos relativos ao declínio de determinado partido político. A leitura de Hannah é auto comprovante, no momento em que percebemos que todo o processo de aceitação de pequenas mentiras veiculado pouco a pouco para criar uma atmosfera de consenso para aceitar/rejeitar determinada coisa, segue as linhas da alienação em massa, mesmo a população tendo tanto acesso a mecanismo de esclarecimento.

Nas condições de tempo da autora, tempos de grandes regimes totalitários, entende-se como sendo ali o suplício máximo de uma República – não há confiança em acreditar em segurança ou liberdade em uma república em crise dessa natureza, cabendo a população acatando as demandas ali presentes, por medo ou comodismo, mas não por consenso. Partindo do exemplo mais claro de regime totalitário, pode-se entender a Alemanha Nazista como um verdadeiro monumento do descontrole da força estatal, e de como o mesmo aparelho é perigoso se não castrado nas medidas adequadas. A Alemanha do tempo em questão, não se tornou o que era da noite para o dia. O processo de aceitação de novas tendências foi incutido aos poucos, partindo de pequenas fissuras já existentes em forma de: id em domínio ao superego, vícios, honra ferida, sadismo personificado, xenofobia, entre outras mazelas. Com isso, de forma muito característica, e se instalando e espalhando aos poucos, como um verdadeiro agente cancerígeno em metástase, o Holocausto de milhares de indivíduos integrantes das minorias, assim como o de próprios indivíduos da Alemanha definida como “pura”, foi justificado e assegurado de forma positiva. Hannah Arendt, não poupa esforços para tentar por fim as crises da república em seu gérmen, pois, quando ideias com grande potencial destrutivo são consideradas irrelevantes, ou que não merecem atenção/preocupação, suas consequências demoníacas são quase certas. A crise da República, portanto, geralmente é identificada quando seus piores espíritos já estão agindo.

Todo esse conflito faz pensar nos pesos dessas mentiras. Partindo do cotidiano, pode-se identificar algumas mentiras simples, que aos poucos se tronam verdade, quando essa linha que divide o “certo ou o errado” já não existe, pode-se analisar uma república também em condições de crise. Nesse aspecto são discutidos os graus de falsidade. É pensado em uma mentira muito absurda, nesse contexto, que evidentemente não faz o mínimo sentido para a população. No entanto, uma parcela, mesmo que mínima aceite essa afirmação, isso gera certo desconforto e faz novamente a população discutir se essa evidente mentira é tal absurda assim; esses graus de falsidade (muito falso, relativamente falso, um pouco falso), condena o povo à aceitação mesmo involuntária de mentiras. Isso aconteceu com os EUA em relação aos documentos do Pentágono. Com as informações conduzindo o povo a aceitação de medidas voltadas aos interesses militares, não é difícil que a crise da república seja intensificada com medidas populistas de adesão de uma figura em si: o Salvador da Pátria (que pode ser uma pessoa ou um determinado corpo de pessoas). Quando há uma forte tensão estatal gerada por egos feridos, comumente são percebidas figuras públicas a fim de sanar o problema de todos. O detalhe é que essa forma de controle – comum em regimes como o de Stalin ou Hitler – faz a população condenar a própria liberdade, entregando-a de forma cega, por medo, ou seja, lá o que for. Ingenuidade ou não, as consequências são as piores possíveis se pensado em uma situação como a estadunidense, onde a população confiava tão cegamente em seu exército que o utilizava como meio de descumprir leis, ou pior: usar dessa força popular para pressionar o congresso e constitucionalizar o que deveria ser inconstitucional. A produção legislativa em si, nesse período, assumia ainda mais ares imperialistas, e as disputas por poder eram justificadas e manipuladas em nome do fetiche doentio do domínio de outras nações. A dinâmica de resumir os efeitos da Guerra do Vietnã em humilhação é perigosa no ponto que resume os soldados em campo a meros objetos que possibilitam o controle, assim como o uso de uma mentira de “Ameaça Comunista” para justificar o ataque falho, a onipotência dos EUA não poderia ser ameaçada, por isso pouco se teve importância com a morte dos soldados. Uma vitória que nunca teve foi criada para dar continuidade ao que quisesse perante o povo, foi isso que fez os líderes do exército dos EUA no período que se discute os abusos do Estado dentro de uma República em crise.

Se algo for relativamente falso, ou se os egos dos indivíduos estiverem inflamados com sentimentos demasiados de superioridade, facilmente pode-se acatar uma mentira por mais absurda que ela possa parecer. A máquina Estatal, nesse contexto, parecia está de mãos dadas com a massa, mas na verdade servia aos interesses mesquinhos do poderio militar, que, como nos outros grandes conflitos, fez menção em continuar em superioridade perante outras nações.  Nas considerações propostas acerca da “Mentira na Política”, pode-se entender como a crise se instaura em uma República por meio da necessidade, evidentemente desonesta, do Estado controlar a punhos de ferro toda uma massa, que por vezes não se dá conta disso. O princípio disso tem ares do próprio Controle Social proposto em correntes Sociológicas, mas, no decorrer de suas atividades toma posturas ainda mais sombrias que muitas formas de tortura.

A mentira, em si, já é algo muito nocivo a um laço seja ele qual for. O motivo é bastante simples: a mentira é uma manipulação, e sendo uma manipulação, logo ela precisa ser mantida (alimentada) e com isso facilmente tomará rosto de obsessão, que por sua vez anula, entre outras coisas, todo senso de dever moral dos indivíduos, os resumindo a um escravo da manutenção dessas mentiras. Na Política acontece exatamente isso. Como sendo uma relação criada pelo homem, a política necessita de regulamentações continuas para, naturalmente, ser assinalada em sua verdadeira função no mundo. Porém, ao ser assumida por homens obcecados por poder, essas funções ganham novas faces. O que deveria ser uma forma de regulamentar as relações humanas, passa a servir de elemento de força de exercícios da mesma. Facilmente, portanto, haverá medidas coesivas ostensivas e demasiadas em situações que não comportam as mesas, tudo isso para controlar um potencial de mentiras que foram deliberadas anteriormente e agora precisam ser mantidos, por ego, fetiche ou outro motivo qualquer. Essa é a essência de todo regime Totalitário. Não só isso, mas como de toda a república que se encontra em crise.

Nas declarações dos documentos do pentágono, fica clara a forma de manipulação a qual sofria o povo, e mesmo assim a facilidade de mantê-la. Tratando do conflito que houve entre EUA e Vietnã, pode-se fazer uma leitura acerca das preocupações de Hannah acerca da perversidade dos líderes do Estado para/com os cidadãos. A falta de acesso a informações confiáveis era fruto de um forte controle que a mídia exercia para não haver espaço para desconfiança, isso era utilizado para assentir a vontade dos comandantes do exército ao povo. Os números de contagem de corpos e de dados dos combates aéreos eram adulterados, e isso não era contestado pelo simples fato de não haver outro meio de averiguar as verdadeiras realidades do conflito, que tinha como função apenas demonstrar o potencial bélico dos EUA – insuperável, único, e acima de tudo: que necessitava ser a todo custo temível.  Os documentos do Pentágono ressaltam o ideal norte americano de domínio obsessivo sobre outras potencias, que evidentemente assegura a falsidade como meio legitimo para alcançar fins políticos.

A crise, de certa forma, nesse parâmetro, mostra-se inevitável. Muito dificilmente a população, por um momento de iluminação ou algo parecido, desperta do seu estado de letargia e de passividade e assume seus direitos perante aos excessos do Estado. Não é tão simples! Porém, perante esses mesmos excessos que aparecem conforme é instaurada a crise na república, podem-se observar reações semelhantes à de anticorpos perante a um ataque patogênico: a Desobediência Civil. Como um ato distinto da violência, a desobediência civil, aparece como resposta para as mentiras que são deliberadas para atingir os fins políticos. Uma organização voluntaria e sem lideres, a fim de retornar a república pensada como instrumento de assegurar as relações humanas. É certo: diante de uma opressão ás classes, a desobediência civil é certa.

Partindo do conflito do Vietnã, por exemplo, onde reinava uma inconstitucionalidade escancarada perante o congresso que se mostrava de mãos atadas perante as imposições militares, surge que por consequência a ação de desobedientes que são regidos de acordo com essa inconstitucionalidade, que naturalmente leva o homem a estados deploráveis de vivência, sem deixá-lo condições de satisfação. Quando a inconstitucionalidade muda o indivíduo de posição, colocando-o em desconforto e tirando o mesmo de um estado de dignidade, a desobediência é tida como reação contrária ao sistema em crise, e não como violência. A desobediência civil se da no momento em que a potência da lei moral e comum ente os indivíduos, em suas consciências, os alertam perante aos problemas em seu meio que os ameaçam de inúmeras formas possíveis. De forma natural os indivíduos se agrupam, pois quando intervém em si mesmo (“preciso agir!”) ele encontra esse ponto de coletividade. A desobediência civil, em primeiro momento, pode parecer que serve de subsidio para o surgimento de um “Salvador da Pátria”, mas na verdade ela está longe de que isso aconteça. Pra isso é preciso entender a relação entre as atividades do indivíduo nesse ponto: a desobediência é percebida em um momento de emergência, onde todos os indivíduos com a necessidade de alterar uma situação que os desconforta agem em conjunto; isso não acontece com o cidadão que busca ascensão política popular, pois o mesmo carece de visibilidade e permanência do poder que detém por algum tempo caso essa liderança o conferir um poder. A desobediência civil só é presente quando necessária, do contrário, a mesma se dispersa naturalmente, como a ação de um anticorpo em um organismo ferido que mostra melhora.

3. Desobediência civil e violência

A desobediência civil merece muita atenção, pois facilmente a mesma é confundida com as diversas tipificações criminosas que existem na sociedade, que não necessariamente são a desobediência civil em si. É muito bem entendido que os níveis de violência dessa desobediência merecem atenção, mas em momento algum que seja castrado de forma a diminuir seus efeitos[1]. Onde age a desobediência é onde a república carece de liberdade, e, portanto, os níveis atingidos são nada mais que graus de necessidade. Quando há manifestação de medidas desobedientes, fica quase que por normalidade que muito disso seja usado para justificar a já criminalidade às leis constitucionais que existem, mas nunca há uma mescla integra delas, de forma a ser perceptível as ações de uma conduta de desobediência civil (suas características peculiares já exploradas) e uma ação criminal individual de um indivíduo com perfil psicológico criminoso especifico – coexiste, apenas isso. Ao ponto, que se faz também pertinente discutir o que é mais apropriado para a população: continuar com os abusos de uma República em crise que ameaça, entre outras coisas, a vida, ou se assegurar na desobediência civil que pode sofrer exageros, mas que é um caminho certo para a liberdade. Dessa forma, não cabe confusão com o termo.

A desobediência é momentânea, enquanto a criminalidade é antecedente e continua; a primeira justificável perante a inconstitucionalidade, a segunda repreendida perante o seu papel movido por ação particular sem fim que não seja para atender a si mesmo. Muito se discute acerca da não-violência, porém nossos grandes exemplos de movimentos revolucionários trazem em si o uso outros canais para atingir seus fins. Faz-se necessário entender, por exemplo, que na Revolução Francesa ou durante a Ditadura Militar no Brasil não caberia recurso de ação pacifica perante os excessos do Estado, muito menos o diálogo com a inconstitucionalidade. Para a persistente inconstitucionalidade, não resta diálogo, mas a “Espada”, como brilhantemente fizeram os desobedientes ao tomar as leis com suas próprias mãos. Em teoria, o papel da não-violência é belíssimo, porém na prática com toda a opressão que é impulsionada da máquina estatal, a medida não tem força, sendo necessária a ação livre da desobediência civil para atingir um ponto de benéfico para todos. A desobediência civil, nesse aspecto, de nada é assemelhando com os abusos da força da Guerra, que por meio da violência descabida ficou incompatível com as demandas políticas, que não servem a ninguém se não o deus Ego. A intimidação presente, por exemplo, tão usada na corrida armamentista realizada mesmo após grandes conflitos é apenas uma reafirmação do ego presente nas relações conflituosas entre as potencias que necessitam expurgar uma reputação própria.

A reflexão acerca da desobediência civil abre espaço para outra análise de grande importância: a Violência. Como já explicado, a desobediência civil pode apresentar – esperado que apresente o máximo possível – violência, mas não é a violência propriamente dita. Na obra, a violência é analisada em diversos parâmetros, mas em especial, como esperado, nos parâmetros políticos. Quando discutimos a violência perante a desobediência civil, é percebido que a violência pode estar em diversos âmbitos, sendo, nesse sentido uma forma de libertação, porém, poderia sim ser associada a uma forma de cárcere. Quando é pensado em um Estado totalitário, que quer a todo custo a manipulação, o uso da força é presente para a manutenção do poder, e, logo, toda a violência implicada nessa manutenção seria a forma de o Estado reafirmar com seu poderio. Em outro plano, por exemplo, pode-se utilizar a complexa e contraditória desculpa de Potências Mundiais para a corrida armamentista, que usam da violência visual com medidas de produção bélica para afirmarem a paz por meio da intimidação, nesse grifo, a autora usa da expressão “ponto de vista maluco” como forma de classificar tal argumento.

No caso do indivíduo perante o seu direito de não acatar a violação disposta pelo Estado, e para isso usa de todas as atribuições possíveis para tomar para si a liberdade usurpada, percebe-se: em todos os casos onde há manifestação de violência, deve-se observar sua finalidade e sua natureza, logo sua conclusão pode ser entendida como um cárcere ou uma forma de liberdade. Não é preciso de muita força de percepção para entender que atitudes de natureza de defesa são diferentes de atitudes de natureza de dominação ou predatórias, sendo esse, finalmente, o limite da violência em si nas disposições das reflexões abordadas.

Para isso, entende-se que a violência toma inúmeras disposições, e a que leva a república a crise é justamente a que faz de meios violentos para atingir fins políticos. Nesse momento, não se discute, por exemplo, o uso da coesão em medidas criminosas que partem de impulsos psiquicamente criminosos, pois essa é justificável. Nesse momento, se discute as disposições políticas ausente de ética – que não carregam os princípios da política em si: assegurar a vida humana – que nada mais são do que uma forma de manter o controle de massa. Nesse aspecto, muito é observado acerca das disposições políticas do tempo em que a obra faz referência acerca de se atingir à política por meios mais violentos, de forma a justificar toda a brutalidade usada em conflitos subsequentes à 2ª Guerra Mundial, como afirmam: “é usado violência para atingir a grande paz!”.

O grande problema disso tudo, além da violência por prazer, é a “política” ser necessária apenas por meios violentos. A ideia é no mínimo perturbadora no tocante de que tal fato indica uma sociedade desleixada ao uso do bom senso, e muito facilmente fatos plausíveis serão assimilados como verdadeiros mesmo deles sendo percebidos apenas certos tons de verdades, mas nele sendo possível a via da falsidade. Isso não faz propriamente uma sociedade alcançar a “graça da paz”, do contrário: a guerra fria não seria vislumbrada pós 2ª Guerra Mundial. Quando faz da política um caminho trilhado por vazão violenta, o que ocorre é o exercício de mais conflitos perturbadores da ordem social, um após outro, em um ciclo infernal e interminável.

O que de fato ocorre, então, é uma confusão acerca das disposições do governo acerca da violência e do poder. Não está na essência do Governo ser violento, pelo contrário, as ações dispostas por um governo devem estar livres do alcance de medidas violentas. A manifestação de poder seria natural no tocante de haver um acordo entre indivíduos para o respeito da positivação a que lhes é atribuído, isso não ocorre no caso da violência, que é precedida de um motivo para ser manifestada. No entanto, com as medidas exageradas de uma república em crise, ou até mesmo com medidas discretas de uma república com tendências a crise, o poder e a violência podem ser enxergados unidos, mas isso não é admitido perante a um Estado Constitucional.

Quando a crise é manifestada, o poder não é legitimo logo a violência é presente para a manutenção do mesmo. Pensando nesse aspecto, pode-se entender que não é o uso de uma violência em medias instrumental por natureza, já que a proporção do seu uso não é coerente, mas sim de uma forma de manutenção da crise em seus princípios mais primários. Por meio da intensificação de ações para manter a crise, pode-se entender seu grau de abuso e até sofisticação para manter o indivíduo perante a falsidade, e isso é um grande problema, já que remete a ser entendido que quanto mais a república mostra-se em crise, mais mecanismos de mostrá-la bem são criados, e mais ainda para controlar o indivíduo. Como o exemplo da burocratização exacerbada, que de certa forma impossibilita a população de agir perante aos abusos sofridos pelo Estado de forma mais brande e retira parte de sua liberdade política, pois inviabiliza mais ação por parte da população. A crise de uma república mostra-se em diversos graus de complexidade, mas ao mesmo tempo apresentados como caminhos simples para a população acatá-los.

Conclusão

É imprescindível, portanto, fazer as últimas considerações acerta dessas reflexões pensadas na realidade brasileira. Antes de tudo, faz-se uma obra atual e aplicável, pois a gama de reflexões nela existentes são percebidas como uma crítica para serem repensados os entendimentos acerca do que é a república em si, além de fazer refletir acerca de medidas para a manutenção da mesma. A forma como o Brasil caminha hoje, com todo o processo de separação de uma nação e a germinação de movimentos que reafirmem a individualidade de um povo, são indicativos de uma República afetada por um processo de crise. A obra “Crises da República” faz refletir acerca do problemático momento em que é encontrada a nação brasileira, mas ao mesmo tempo em como a república busca meio de evitar e corrigir esses mesmos efeitos da crise, com a Desobediência civil, por exemplo. Por mais sombrios que os tempos possam parecer, há sempre uma maneira de reverter os excessos a qual os indivíduos são submetidos de maneira injusta, sejam formas pacificas, ou não. “A República agoniza, mas não morre.” Essa talvez seja a grandiosa lição da obra a qual esta resenha crítica é destinada.

 

Referência
ARENDT, Hannah. Crises da República. Tradução de José Volkmann. São Paulo: Perspectiva, 2015.
 
Nota
[1] Faz-se necessário entender que na leitura de Hannah, não se classifica a desobediência civil como um mecanismo componente da Violência em si. A desobediência civil pode ser pacifica ou violenta, sendo a segunda justificada pelos abusos que a população é submetida perante uma república em crise. É pertinente associar, por meio de um grifo nosso, a proximidade com a leitura do ativista político Malcolm X (Al Hajj Malik Al-Shabazz), quando afirma que “não se deve confundir a violência do opressor com a resistência do oprimido”.

 

Informações Sobre o Autor

Maria Regina Maciel de Arruda

Bacharela em Direito pela Faculdade Marista - FMR. Especializanda em Gestão Pública na Universidade Norte do Paraná

 
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Informações Bibliográficas

 

ARRUDA, Maria Regina Maciel de. Crises da República - análise da obra de Hannah Arendt. In: Âmbito Jurídico, Rio Grande, XXI, n. 172, maio 2018. Disponível em: <http://www.ambitojuridico.com.br/site/?n_link=revista_artigos_leitura&artigo_id=20542>. Acesso em nov 2018.


 

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ARRUDA, Maria Regina Maciel de. Crises da República - análise da obra de Hannah Arendt. In: Âmbito Jurídico, Rio Grande, XXI, n. 172, maio 2018. Disponível em: <http://www.ambitojuridico.com.br/site/?n_link=revista_artigos_leitura&artigo_id=20542>. Acesso em nov 2018.